Preces durante a pandemia e notícias lastimáveis do Chagdud Gonpa no Tibete: uma mensagem de Tromge Jigme Rinpoche

Querida sangha e amigos do Chagdud Gonpa,

No momento atual, o mundo inteiro partilha a dor e o fardo de uma pandemia sem precedentes, com centenas de milhares de pessoas sofrendo devido ao medo, ao isolamento, à privação e a mortes solitárias e extemporâneas. Estamos enfrentando situações que muitos de nós jamais vivenciaram, o que pode trazer à tona o melhor e o pior de nós mesmos, de nossas famílias e comunidades. Rezo para que todos nos mantenhamos saudáveis e saiamos disso com maior clareza e firmeza, e também mais confiança em nossa prática e capacidade de apoiar os demais.

Segue abaixo uma prece escrita no século XIV pelo mahasiddha Thangtong Gyalpo por ocasião de uma epidemia na comunidade Sakya, que pode ser benéfica nestes tempos vigentes: “A Prece que Salvou os Sakya”. Esta oração é particularmente relevante para nós, alunos de Chagdud Rinpoche – que era considerado uma emanação de Thangtong Gyalpo – e praticantes do ciclo de Tara Vermelha de Apon Terton. Portanto, por favor, incluam esta recitação, bem como preces a Tara e a Chenrezig, em sua prática diária.

Sua Santidade Sakya Trizin dá a seguinte explicação: “Certa vez houve a disseminação de uma doença incurável no monastério e na comunidade local dos Sakya e, após todos os métodos de cura terem fracassado, Thangtong Gyalpo recitou a preces de refúgio, vários mantras mani e esta prece específica.  Diz-se que, com a recitação da prece, a propagação da epidemia viral cessou imediatamente. Assim, ela passou a ser conhecida como ‘a fala-vajra dotada de nuvens de bênçãos, a prece que salvou os Sakya’.

Por favor, recitem esta prece o maior número de vezes possível ou, no mínimo, três vezes ao dia. É uma prece simples para evitar a disseminação do vírus. Além disso, em momentos como este, vocês devem lembrar do Bodisatva da Compaixão, Avalokiteshavara, e invocar suas bênçãos e proteção. No Sutra Avatamsaka, Avalokiteshvara disse: “Tornei meu nome conhecido no mundo para que os seres possam ser liberados do perigo. Abençoei tantas formas minhas quanto o número de formas dos seres, para que os seres pensem em mim quando for necessário”.

Guru Padmasambava disse: “Quando alguém for afligido por doenças ou influências malévolas, se comparado a qualquer ritual mundano de cura ou de rechaçar obstáculos, o mérito das Seis Sílabas é muito mais eficaz para afastar obstáculos ou doenças. Comparado a qualquer tratamento médico ou cura, as Seis Sílabas são o medicamento mais potente contra o mal e a enfermidade”. Portanto, por favor, recitem o mantra de Seis Sílabas -–“Om Mani Padme Hung” – tanto quanto puderem, com imensa compaixão por todos os seres sencientes. Ao final da prática, dediquem o mérito acumulado em benefício de todos os seres sencientes”.

 

Link para prece: versos_que_salvaram_sakia_2020

 

Além disso, algumas pessoas já devem ter recebido a trágica notícia do incêndio que queimou grande parte do Chagdud Gonpa no Tibete, ontem, causado acidentalmente por um familiar que estava visitando o local. O grande templo principal, todos os alojamentos dos monges e as casas de dois lamas foram destruídos, um total de 30 edificações. Esse é o lado ruim da notícia. O lado bom, porém, foi que o pequeno templo datado do século XIV que abriga a estátua de Guru Rinpoche – uma das estátuas mais sagradas de Guru Rinpoche em Kham –, bem como a relíquia de Mahakala, a estátua de Sherab Gyaltsen com suas relíquias e uma estupa, foram poupados do incêndio, assim como o lhakhang do shedra. Graças à bravura e à devoção altruísta dos monges, todas as principais relíquias sagradas do Chagdud Gonpa foram salvas. Muitas ficavam guardadas no lhakang, que foi queimado, e antes do telhado ruir, os monges conseguiram retirá-las, além de remover também as bancadas do templo. Embora meu coração esteja condoído pelas notícias do incêndio, regozijo-me com todo o esforço dos que impediram perdas muito piores.

Sendo um dos monastérios mais antigos de Kham e o assento de nosso professor, Sua Eminência Chagdud Rinpoche, esse templo representa a força e o brilho da linhagem Chagdud ao longo de vários séculos. Quando retornou ao monastério na década de 1980, nosso Chagdud Rinpoche expressou sua felicidade pela união da sangha naquele local e pela lealdade de vários indivíduos que, mesmo tendo passado por períodos muito difíceis, assumiram a responsabilidade de manter as práticas do gonpa e de cuidar dos diversos objetos sagrados. Pessoas e construções vêm e vão ao longo dos séculos, seja por causas naturais ou desastres, mas agora vemos que, mais uma vez, o que sobreviveu no Chagdud Gonpa foram os objetos sagrados preciosos e a atitude de coragem e devoção daqueles a quem foi confiado o seu cuidado.

Mesmo que os que estão fora do Tibete não possam ver os objetos sagrados do Chagdud Gonpa Tibete com seus próprios olhos, podemos nos alegrar sabendo que eles ainda existem, intactos, como o âmago do legado material do gonpa, e seguem trazendo bênçãos para muitos seres. Fora isso, o que temos presente aqui conosco é o legado das bênçãos intangíveis – os ensinamentos que recebemos de Chagdud Rinpoche, herdados por ele de seus predecessores. Isso inclui a tradição das danças dos lamas, que trouxe tanto renome ao Chagdud Gonpa que seus monges se deslocavam até o monastério-mãe, o Kathog Gonpa, para ensiná-las.

Convido a sangha ao redor de todo o mundo a oferecer preces de apoio ao Chagdud Gonpa, recordando a tenacidade feroz desse monastério situado em meio à ventania do cimo de uma montanha remota, e de seus residentes. Ainda hoje, o prédio do shedra permanece, amplo e seguro, para que o puja possa ser mantido sem interrupções. Na medida em que tanto praticantes monásticos como leigos por toda parte refletem acerca das bênçãos recebidas pela presença do Chagdud Gonpa no mundo, e no poder de seus objetos sagrados, que possamos dedicar toda a virtude e reunir todos os recursos para que as estruturas que foram perdidas possam ser reestabelecidas, e para que a comunidade volte a prosperar.

Rezo pela saúde e bem-estar de todos e para que, se a impermanência e o carma não intervirem, possamos todos nos reunir novamente, em breve.

Com amor,

Tromge Jigme Rinpoche